Caim e Abel - A Drástica Gênese do Livro Soledade - Parte IV


Anterior a outros acontecimentos intragáveis, volta a ter participação importantíssima neste percurso, o irmão mais velho de Irecêr e cunhado de Dilberto Fragoso - Álvaro Pinheiro de Souza. Agora já casado e com duas filhas. Sua presença emblemática permanece até o final deste episódio e compreende uma grande relação de fatos ocorridos no momento mais turbulento da família, após a mudança de Irecêr para Jurubatuba em São Bernardo do Campo - município de São Paulo, quando seus filhos já estão adultos. Apesar do seu caráter rígido e participação omissa a certas ocasiões da sua geração, não causando muitas alterações ao destino de ambos, o mesmo porém esboçava um perfil desafiador que compôs uma intensiva jornada heróica em favor de sua irmã e de seus sobrinhos.
Nessa mesma época durante a vida conjugal de Irecêr, com seus três filhos, Álvaro realizava uma busca intensiva a saber o paradeiro de sua irmã mais velha que quando mais moça foi entregue pelo pai a um sujeito desconhecido e nunca mais havia sido vista pelos irmãos menores. Assim a primeira coisa que desejava fazer quando atingisse sua maturidade era encontrá-la. Feito isto, com grande esforço, foi bem sucedido finalmente achando-a. Por meio de informações terceiras, a referida estava ocupando uma maloca no meio de um matagal abandonado, mãe já de cinco a sete filhos.
Álvaro Pinheiro era um homem revoltado com a vida e infância sofridas por grandes traumas vindos da convivência com o seu pai mais outras rejeições, humilhações e agressões físicas constantes, as quais sobreviveu afinco. Por conta das prostituições de seu pai que lhe acarretaram doenças crônicas, Álvaro nasceu com as duas vistas lesionadas e padecia de graves secreções oculares a ponto de não suportar um fio de luz na média dos seus três anos. Ele ainda sofreu uma queda na infância que veio a afundar um pouco do crânio que prejudicou a formação do seu rosto, deixando os olhos um pouco pequenos e o fazendo ter expressões parecidamente asiáticas - o que moveu uma japonesinha do local a se apaixonar perdidamente, logo também sendo correspondida, no entanto, vindo a durar somente até a descoberta das origens do rapaz. Isto porque os orientais tinham um rígido costume em se casarem apenas com membros de sua etnia, o que muito entristeceu a ambos e principalmente Álvaro que lançou sua decepção no trabalho.
Como já não bastasse todas estas memórias perturbadoras, seu casamento também veio a se tornar uma penitência quando decidiu selar sua união com uma moça conhecida das redondezas de onde morava, em um momento de segurança financeira - o que de certo incentivou o casório, principalmente pelas reais intenções da sua noiva que era sair da zona rural para a grande metrópole de São Paulo. O que não aconteceu, porque Álvaro preferia ambientes campestres, optando por comprar uma propriedade distante de áreas urbanas ou até mercantis, em um local pacato de Mato Grosso. Sua mulher detestou a ideia e desde então passou a tratá-lo de modo agressivo, o humilhando constantemente e fazendo restrições absurdas como greves no relacionamento, além de outros atos culminantes de tortura psicológica e física - agredindo o próprio marido, fazendo ele acordar com baldes de água fria e ademais. O casal teve em torno de cinco filhos, mas principalmente duas das meninas que a mulher fez questão inclusive de manipular para que ficassem contra o pai, também praticando as mesmas humilhações ao genitor. Infelizmente isso durou por toda sua vida, fazendo-o desenvolver duros transtornos psíquicos e problemas de tensão aguda.
- As fotos de Álvaro Pinheiro não estão disponíveis por complicações familiares.
Então após ter reencontrado sua irmã vivendo numa condição precária, Álvaro comunicou Irecêr imediatamente, que foi na companhia do próprio até onde ela se localizava. Creusa Pinheiro de Souza estava há mais de cinco anos sem dar notícias, desamparada dos irmãos havia concebido cinco a sete filhos para João de Oliveira (sem mais registros) que ainda residia junto da casa - sem condições de uma boa moradia e convivência, enquanto vivo junto dos seus filhos, onde quer que morassem as janelas ficavam fechadas, luzes apagadas e um frio avassalador. Os meninos andavam pela casa descalços, alguns sem vestimentas e com indícios de maus tratos. Se não fossem seus parentes por parte de mãe tê-los encontrado, sua história acabaria ali. Ambos os três irmãos finalmente estavam juntos e isto não mudaria ou não seria alterado por mais ninguém até o fim de suas vidas.
- As fotos de Creusa Pinheiro não estão disponíveis por complicações familiares.
Mais tarde, Creusa mais seus filhos junto de seu marido viriam se aproximar da família Fragoso - de sua irmã caçula (Irecêr), passando um tempo de estadia na propriedade do casal. Onde por um lado fosse um bom momento de compensação pelos anos perdidos, tornou-se também um ponto de discórdia entre Irecêr e Dilberto. Isto foi quando Creusa e João de Oliveira, com incentivo dos irmãos, estavam para conseguir mudança para o litoral paulistano - assim como o antigo estilo cotidiano de Irecêr e seu marido. Já haviam idealizado uma moradia em São Vicente e por isso eles decidiram (sem aviso prévio) se mobilizarem para a casa dos Fragoso - onde inclusive, assim que eles chegaram, Dilberto e Irecêr discutiam por algum motivo; ocorre a intromissão deles chamarem pelo casal. Dilberto olha pela janela e observa:
- "é apenas um bando de mendigos."
Mas assim que percebem a presença de sua irmã e cunhada, logo os recolhem para dentro, deixando Dilberto um tanto devastado.
Isso fez com que por um curto prazo de tempo, os filhos de Irecêr convivessem com seus primos e dessem muito bem, futuramente tornando-se companheiros de boas aventuras. Mas também trouxesse transtornos porque naquele tempo o marido de Creusa havia acumulado o valor da paga para o imóvel e acabou por optar em realizar a compra sozinho, não contando com o auxílio do seu cunhado que entendia de administração e da política local. Assim ele confiou em um corretor que na verdade era golpista, e perdeu toda a sua valia. Eles tiveram de permanecer por lá mais algum tempo enquanto recuperassem a paga do imóvel até mesmo, desta vez, com a ajuda de custo do próprio Dilberto F. Apesar disto, o casal tinha que saber lhe dar com estranhos costumes dos inquilinos que maravilhados com a propriedade acabavam por estragar alguns utensílios, sujavam muito, tinham a mania de urinar nas jardineiras e até quebrar pertences dos seus filhos; deixando Dilberto muito irritado.
Mesmo em meio a tantas turbulências e contendas, o casal ainda se mostrava firme, completando, aquela altura, quase vinte anos de casados - precisamente dezessete anos - o período exato de estadia da família na fazenda mais a primeira década de seu casamento. Eles ainda eram jovens, muito apaixonados e mantinham uma relação pura, genuína e delirante sem sinais de rachaduras visíveis. Depois que sua irmã com o marido e os filhos conseguiram se instalar devidamente nas regiões de Santos, tudo estava bem novamente ou melhor.

Voltando a detalhar com mais precisão o expediente de Dilberto no cargo da gerência, temos que ele saía bem cedo da fazenda para o trabalho próximo do casarão e apenas voltava tarde da noite, quando a maior parte dos criados já haviam se recolhido, fora o seu motorista pessoal mais sua esposa que acompanhava a rotina de Irecêr durante a semana. Na maioria das vezes, sua locomoção até o trabalho era manual pelo automóvel da família, onde se transportava da fazenda para o trabalho e no meio do caminho deixava o filho na escola, dirigindo-se diretamente ao seu destino de serviço. A escola do Betinho estava localizada próxima a uma zona operária com um armazém logo a frente onde os peões de firma saíam para almoçar; era uma área ampla e arborizada também como ambientação para o intervalo dos alunos. Porém quando ele havia de se recolher em alguma viagem com o motorista pessoal, certamente haviam de ser negócios mais densos. Como de costume na época (e ainda atualmente para os que podem) ter um motorista pessoal é de conceito estritamente privado como um assistente encarregado dos assuntos incomuns ou sigilosos, além das idas e vindas discretas para completo resguardo do seu senhor - o passageiro. Com isso, o veículo não estava disponível completamente para as viagens em família e sim, apenas o carro pessoal. O motorista se chamava Antônio e sua esposa era chamada Dna. Augusta
(sem mais registros...)
Certa vez, voltando de uma corrida, seu Antônio estava procurando Irecêr pela fazenda e assim quando a encontrou, convidou ela para fazer uma visita a sua esposa que de acordo a sua prosa, naquele dia Dna. Augusta não parecia-se bem e queria muito lhe falar no exato instante. A princípio, não era algo habitual que o motorista da casa se dirigisse especificamente a mulher do seu patrão, ou muito menos perambular sem a presença do mesmo - embora Dilberto Fragoso também fosse uma pessoa simples e discreta. Sem recusar o pedido, Irecêr segue com ele até o carro e durante toda a viagem, seu Antônio pede para Irecêr manter a calma, até chegarem a seu ponto de destino onde logo avistam Dna. Augusta, bem posicionada na entrada, com seu semblante limpo - mostrando que não havia tido qualquer possível mal estar. Seu Antônio a acompanhou até a porta de casa e retrocedeu, deixando as senhoras bem na sala de visitas. Gentilmente, Dna. Augusta recebe Irecêr com todo o apreço e, de maneira dócil, a convida para se sentar. Começam a conversar sobre os assuntos primários, e assim cuidadosamente aos poucos ela a revela que tristemente Dilberto está traindo seu casamento. Disse ainda que Antônio, o motorista de Dilberto, havia a contado esta desgraça fazia algumas luas e que isso não poderiam esconder de sua honorável dama. Irecêr mal sabia reagir a informação em completo estado de choque, não conseguia sequer acreditar ou ter noção da profundidade destas bárbaras palavras que lhe anunciavam a futura devastação do seu casório - até então sem motivo aparente, e claro que mesmo havendo, nenhum justificaria para tal.
(Sem mais registros…)
A descoberta real da traição viria já com suspeitas por um súbito esfriamento do casal e alguns estranhos atritos, mas foi durante uma conversa sinistra entre o casal até com sugestões para suicídio em que numa visita de uma amiga, Irecêr percebeu a presença do Dilberto na sala de estar, logo em seguida mencionando a hipótese de traição simulou o que faria se algo do gênero ocorresse com ela:
- "Se eu descubro que meu marido me trai, certamente eu o mato."
Falou assim, deixando todos os presentes de expressão sombria.
Ambos trocam olhares e ele se retira do ambiente para o quarto do casal, permanecendo por lá até o cair da noite. Assim que Irecêr dirige-se ao seu descanso, ela encontra seu marido sentado na poltrona do quarto ao pé da cama, de frente para a cabeceira - parecendo estar à sua espera. Após ter de observar tudo isto, ela apenas decide ignorar e se recolher, mas assim que recosta a cabeça sobre o travesseiro, ela sente algo gélido lhe impedindo de bem se acomodar e quando se levanta para ver, descobre uma pistola carregada.
"Mate-me agora; tem sua chance." - Ele diz.
Adélia de Lara, uma mulher de estatura de cinquenta anos, morava num subúrbio das redondezas próximo a um quarteirão de onde o filho mais velho do casal estudava e as poucas informações conseguidas pela própria Irecêr foi de que a amante tinha terminado recentemente um casamento, era de uma família miserável e sua única parente restante era a própria mãe que na época vivia isolada numa maloca, chegou a auxiliar Irecêr em algumas buscas, não muito depois vindo ao falecimento por desgosto e desistência da vida. Adélia também tinha uma média de sete filhos mestiços ou bastardos de casos, traições ou trabalhos da noite - quando fazia um de seus programas irregulares, muitas das vezes era por comida ou por diversão. Os programas ocorriam dentro de uma van abandonada sem condições e enquanto os mesmos aconteciam, os filhos eram postos pra fora e obrigados a esperar na porta do automóvel, fizesse chuva ou sol. Eles também andavam sujos, despidos e tinham uma aparência raquítica, apontando maus tratos. Por mais informações de terceiros, Irecêr descobriu que Adélia e Dilberto haviam se conhecido em um bar próximo do sítio que ele frequentava, sustentando o vício em álcool; ela era a balconista que lhe servia o café e a comida de costume, além da sessão de cervejaria. Dilberto Fragoso até então já andava rodeado de más companhias devido o trabalho, e antes mesmo da denúncia de traição, era ele que reclamava muito dos companheiros de serviço com assuntos ilícitos e indesejáveis "para um homem casado." Certa vez estes mesmos amigos começaram a inquirir que ele também dividisse sua rotina conjugal como faziam os outros que partilhavam contos de suas aventuras sexuais e mundanas enquanto Dilberto era apenas um ouvinte passivo. Tudo isto ele próprio relatava para a esposa e se mostrava muito nervoso com os maus modos dos criados, o que não deixava Irecêr preocupada ou pensante com a conduta do esposo. O convite até o local que parecia-se com uma lanchonete barata, havia sido feito por um sócio ou conhecido daquelas bandas vazias e distanciadas da fazenda onde permaneciam peões de outras firmas - ali Dilberto Fragoso conhecera (-nome-), um funcionário local que na verdade atuava como gigolô na região e fazia mercado negro, o sistema que supostamente Adélia de Lara fizesse parte. No início, Adélia se apresentava para Dilberto como uma humilde empregada do estabelecimento e contava a história de que não tinha dinheiro para dar leite e outros suprimentos aos seus filhos, pedindo esmolas de caridade. Foi então que algumas das vezes Dilberto chegava na fazenda pedindo o leite puro que era ordenhado e separado para os seus filhos legítimos e entregava para ela.
Foi daí que numa das idas de carro do Betinho - o filho mais velho do casal - até sua escola junto de seu pai, ele teve a chance de poder gravar a fisionomia da estranha. Quando ao sair do carro e ser deixado por Dilberto na frente do colégio, ele se depara com o veículo seguindo adiante e, bem longe, fazer o retorno virando na esquina seguinte. Em frente a escola se localizava um ponto de táxi com várias vagas, o que movimentava bastante sua entrada e com isso, o ajudando a se camuflar no alvoroço da avenida para conseguir que não fosse a aula naquele dia. Ele foi para debaixo de uma árvore com uma grande folhagem, permanecendo ali à espera. De repente ele avista Dilberto sozinho, com sua malinha de serviço empenhada no braço esquerdo e usando chapéu panamá fino lhe escondendo o rosto, logo adentrando um ambiente enegrecido. O rapaz quase não consegue acreditar no que está vendo e rapidamente se dirige para um táxi próximo deixando seus livros, casaco e mochila no banco de trás e pede ao motorista que fique no seu aguardo. Então atravessa a avenida e segue para o mesmo quarteirão, avistando um humilde menininho de estatura baixa, de pernas magras e costelas a mostra - provavelmente um dos filhos de Adélia - Betinho lhe pede com tom imperativo que trouxesse seu pai naquele exato instante; e conforme o garotinho adentra pela casinha, o Júnior também não perde tempo e o segue por de trás, passando da sua frente e encontra seu pai de pé ao lado da cama com Adélia sentada a sua ponta oposta. Ele sem pensar duas vezes avança contra a mulher, a xinga ferozmente e grita contra ela. Só que logo Dilberto consegue controlá-lo, pondo-se entre os dois e quando tenta o tomar pelo braço para levá-lo até o lado de fora, ele diz:
- Não saio daqui enquanto não terminar de dizer o que ela precisa ouvir.
E o pai apenas lhe responde:
- Só precisamos conversar.
Betinho volta ao centro do quarto e segue falando contra Adélia, marcando seu Último dito:
- Deixe o meu pai em paz, não volte atrás dele.
E então ela o responde:
- Não sou eu que faço. Ele é quem vem até mim.
Pelo seu estado nervoso, transpirava muito e com isso a lente do seu óculos abafava a visão, porém ele se lembra de uma mulher com má postura, de saia longa, cabelo preso e rosto abatido e aparentava ser mais velha que o seu próprio pai. Já ele estava trajado, como de costume, de palitó e chapéu brancos. Dilberto convence o filho a ir para o lado de fora mas no meio do hall residencial, ele retorna para falar algo com a mulher e neste instante o Júnior corre enfurecido em direção ao táxi que pediu seu aguardo. Apreensivo para não ser alcançado pelo pai, entra no carro e pede o início da corrida o mais rápido possível. Chegando no casarão da família vai a procura de sua mãe que no momento trajava-se com um penhoar matinal e havia acabado de acordar, ele a segura de um jeito brusco e a diz: "temos que sair daqui rápido, antes que ele chegue até nós." Os dois seguem para o táxi e o dirigem até a casa de uma de suas madrinhas, chamada Luzia - que por muito incrível estava passando pelos mesmos problemas da família, na mesma época. E durante a viagem, Betinho conta o que lhe aconteceu. (Isso por volta de seus dezesseis anos)
A segunda visão de Adélia de Lara foi tida pela caçula (Aninha), que numa volta de carro com sua mãe, passou em torno das redondezas do subúrbio onde Adélia estava instalada. No momento que o carro passava em frente ao ponto de prostituição, Irecêr mandou que Aninha se abaixasse enquanto a mesma tentava ingenuamente esconder as manchas de nascença que tinha no rosto (eram duas pintas na frontal e no queixo). Antes mesmo que a menina obedecesse, foi possível que num relance súbito pudesse enxergar uma mulher robusta com um longo rabo de cavalo, usando saia cigana e de braços cruzados. Parecendo-se com uma gladiadora - o completo oposto de sua mãe que era franzina e delicada.
Os atritos entre o casal sequelaram a educação dos filhos que flagraram diversos momentos perturbadores e arrasantes de discussões e até agressões repentinas, chegando a desenvolverem diversos traumas como depressão, ansiedade, desinteresse emocional e motivacional no cotidiano. Com o tempo, Dilberto foi se deslocando da casa e passando maior tempo fora e deixando os filhos sozinhos. Nas poucas oportunidades que os filhos tiveram em vê-los, n'algumas das últimas, ainda na fazenda, Dalmo sofreu uma crise de ansiedade, se lançando no chão dentro de um ataque nervoso. Aninha, perto dos dez anos teve problemas de gastrite e incontinência urinária que perdurou até os seus quinze anos de idade. Ambos os pequenos também tiveram bronquite asmática. Na mesma época, Dilberto Júnior decidiu abandonar os estudos, sendo admitido pela segunda vez, durante uma prova eletiva. Ele desabafa com a professora que estava lhe sendo insuportável estudar no local tão próximo da amante de seu pai - e disse ainda que se a mulher fosse mesmo bonita, ele seria realista. Isto porque eles tentavam a todo momento encontrar o real motivo para Dilberto estar traindo não somente a mãe, mas a todos eles.
Dilberto Fragoso havia acabado de se estabilizar em um emprego conceituado numa das antigas propriedades dos Abdalla, além de sua principal conquista - uma boa mulher, jovem e leal, três lindos filhos bem encaminhados, custeado por uma boa renda e empregados a seu dispôr. Não haveria prudência ou justificativa plausível em tais atos infames que jamais teriam vindo de sua pessoa. E nos resta crer na única explicação:
Seu vício em álcool. Como? Por quê?
Se analisarmos a infância e adolescência de Dilberto Fragoso passaremos a entender que ele não estava preparado para liderar uma família ou negócio próprio. Isto por causa das constantes opressões que sofreu dentro de uma família tóxica, o privando de responsabilidades necessárias para o seu crescimento, assim o inutilizando e causando profundas frustrações na adolescência e juventude que lhe acarretou o vício em álcool - a única porta para o inferno em sua vida. Além de tudo a confiança quase nula sobre ele, o deixara impotente para novas circunstâncias que lhe exigissem fortes atitudes. Quando Dilberto finalmente havia deixado a casa dos pais, direto para uma fazenda extravagante, agora como homem casado e pai de três filhos, partiu para uma conquista que também não foi sua, mas de seu cunhado, onde num ato de misericórdia (e talvez ao seu ver masculino, um ato de pena) ofereceu a vaga de gerente administrativo para uma abelha sem ferrão, uma borboleta sem asas. Dilberto não tinha expectativas de vida e quando obteve sua total estabilidade, sentiu-se confrontado pela mesma. Sem contar os desafios administrativos do trabalho e problemas com a adolescência do mais velho lhe exigiam experiências que ele não tinha ou talvez exemplos que não podia dar por falta de consciência e também ver os seus filhos terem o que ele próprio não pôde usufruir na sua infância lhe causou um egoísmo imperativo. Isso são questões possíveis - nada que possa justificar tamanha insanidade.

Assim em 1976, Dilberto Fragoso tem um estalo súbito e corta os pulsos (politicamente falando) abandonando mulher, filhos e propriedade para viver dentro de um jipe velho em baixo de uma árvore num terreno baldio, fazendo da prostituta Adélia de Lara apenas um pretexto da sua decadência que o levou a depressão e consequentemente loucura.



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