Caim e Abel - A Drástica Gênese do Livro Soledade - Parte II


É interessante observar a partir deste capítulo o curioso protagonismo de cada um dos irmãos conforme o seu crescimento. Então damos destaque primordial nesta cena ao filho mais velho do casal que carrega consigo um papel importantíssimo do desenvolvimento da história.
Dilberto Fragoso Junior
Começamos na perspectiva do primogênito com memórias já aguçadas devido a idade além de maiores pontos de observação e recordações cruciais. No presente momento da narrativa;

- Calado, come quieto.
Como predito, era Dilberto Júnior de quinze anos quando se mudaram para a nova propriedade, onde os meninos facilmente se adaptaram rápido e souberam se amigar bem com os filhos de funcionários locais que se sentiam lisonjeados da maneira como eram tratados e logo valorizaram a família quais os melhores senhores que já haviam tido pela sua recepção e calor humano com todos.
O entretenimento favorito do irmão médio era se banhar nas águas purificadas da nascente que se localizava na ponta do logradouro, bem a fundo nas plantações em um local quase imperceptível, além deste gostava também de ambientes campestres e sempre estava subindo árvores, caçando passarinhos e outras selvagerias de peralta. Quando Betinho descobrira sobre a nova peripécia do garoto, ele ficou entristecido por saber que seu irmão mais novo sabia nadar antes dele. Aninha, a caçula, gostava de passear entre os pomares e colhendo frutos na companhia de sua pajem chamada Maria e também se divertia no salão e na varanda de casa, usando-os para suas fantasias infantis, sonhando estar em um castelo. Ana Lúcia (nome dado por seu pai e carinhosamente ganho o apelido de Anita - a graciosa) era também conhecida e tratada como tal por toda a família como a princesinha, pela sua frigidez e singeleza. Se mudou para a fazenda com sua família quando tinha quatro para cinco anos, por isso ela não podia sair para lugares sozinha sem que fosse acompanhada pelos empregados, por sua mãe ou por seus irmãos. O pai era restrito quanto a sua educação por opção própria e desejo de que fosse rodeada apenas por mulheres, fazendo de suas aparições raras a vista da menina (apenas durante as refeições e festividades). Já Betinho preferia passar o tempo proseando com os criados e auxiliando o possível na rotina de sua mãe, quando não estivesse no período de escola. Isto de qualquer modo porque Betinho havia crescido no meio de gente madura, quase sem amigos e isto o limitava a andar com rapazes da sua idade, apesar dos filhos dos criados que se admiravam pelos costumes finos e bem conhecidos do jovenzinho, e sempre queriam estar por perto. Através destes mesmos parceiros junto dos criados mais velhos, conheceu derivados do álcool, como cachaça e também tabacos, como fumos de palha. Além dos mais genéricos, habituais entre os roceiros. Aconteceu numa das confraternizações de natal realizadas pelos funcionários locais, os garotos da casa encheram uma mistura de vinho com álcool para o filho do chefe (sem o mesmo saber), o deixando tonto e perdido no matagal. Outro festejo muito esperado pelos moradores da região era o dia de São João em que montavam uma enorme fogueira no meio do sítio e todas as famílias vinham se reunir na frente do casarão. Ali comiam, cantavam e dançavam. E ao findar da festa nos meados da madrugada, espalhavam as brasas do fogaréu num longo percurso do campo para caminharem por cima - um sacro ritual junino também feito em pequenas aldeias de cidades vizinhas do estado de São Paulo como também agora - este no qual Betinho chegou a participar cerca de cinco vezes/ praticamente o exato número de tempo que permaneceu ali.

Nesse meio tempo, quando estava livre de afazeres, sua rotina com os poucos amigos era se aventurar pegando favos de mel em colméias cabeludas com abelhas e marimbondos ou descer até a nascente de águas purificadas, muito distante dali, e descansavam na parte alta da fonte onde havia musgos e gramados. Rezava a lenda entre os criados da casa que um dentre eles, conhecido Zé Vaqueiro, estava enamorado de uma mulher comprometida e atuava seus encontros com a dama misteriosa exatamente na nascente - por ser muito distante do casarão, onde tinham de atravessar três longas estradas de terra até alcança-la. Com isso o pai Dilberto não era a favor de encontrar os filhos no ribeiro, também pelas correntezas, dando-lhes duras broncas e proibindo fortemente de vê-los ali. Porém persistiam em ficar ali, até uma vez onde acharam enormes galhos impedindo as correntezas - deduziram que havia sido alguma provocação do criado traíra - e insistiram na peripécia. Betinho mais seu amigo apelidado por Zeca estavam achando uma forma de tirar os galhos d'água, quando o menor havia encontrado um machado próximo da casa de um dos moradores. Eles sobem na parte alta da fonte, fincando o metal da ferramenta no tronco mais grosso que tampava o centro da nascente. Atrás dele estava Betinho levando uma corda na tentativa de usá-la para amarrar e puxar o empecilho, embora a corda tivesse alguns nós no meio e ele fazia de tudo para desfazê-los. Com os braços e mãos posicionados contra o busto e o corpo relaxado no quadril levemente jogado para frente e cabeça baixa com o pensamento longe e de olhos fitados no nó da corda, não percebe o movimento brusco do garoto a sua frente voltando com o machado para um novo lance. Neste exato momento o rapaz perde o equilíbrio e cai para trás, tendo a lâmina acertando dois dos seus dedos da mão direita e pouco não agarrando a cabeça do Júnior. A agonia foi maior pela percusso horrendo na busca de socorro entre a nascente para o casarão da fazenda onde estariam os pais do Betinho.
O terreno por si só equivalia mais de quinhentos equitares com terrenos médios de outras famílias inclusos dentro do espaço de mineração, com três ou quatro estradas de metros que ligavam a escola da sua irmã caçula, a fundação de águas nascentes e o início da cidade de Registro, além da estrada do Rabelo que ligava a rodovia para suprimentos próximos como hospitais, supermercados, lojas, farmácias e afins. Em meio ao mar de sangue das mãos que serviam como poços para a infestação vermelha, outro detalhe espantoso foi observado pelo amigo ao lado que descreveu Dilberto de forma calma e pacífica, senão fria, no instante em que percebeu a possibilidade em perder seus dedos, além de andar durante todo o percurso sem muita reclamação e, ao chegar no seu destino, após incrivelmente caminhar por quase léguas, com as mãos empoçadas de sangue, ele chamou calmamente um dos seus criados para então chamar seu pai - pedindo descrição de que sua mãe não soubesse do ocorrido - pois o primeiro pensamento que havia lhe chegado foi do desespero que sua mãe mostraria ao ver a profundidade do corte.
[Foi exatamente a primeira coisa que havia pensado].
Mas embora o momento tenha marcado para todos os presentes, a recuperação do primogênito foi rápida, correndo tudo bem conforme o processo e sem nenhum dedo amputado, graças a injeção anti-tetânica que os médicos deram ao ferimento para que além da boa reação com a cirurgia, fosse como impedimento contra possíveis complicações pela lâmina do machado e exposição do mesmo. Apesar do trauma vivido pelo noviço, isso não o impediu de continuar frequentando a nascente, sendo a razão para enamorar-se pela filha de um morador, chamada Marcelina e o seu pai Eugênio, futuro primeiro sogro do jovem. Eles namoraram por volta de dois anos. Na época o rapaz já tinha pele parda, da cor de Marcelina; ambos combinavam de jeitos e trejeitos, de modos a penteados. Seu primeiro relacionamento foi também o que deixou ser mais espontâneo, o que era para ser uma boa notícia já que era um menino tão calado e sozinho. Mais tarde aos dezessete para os dezoito anos - no tempo em que estava de mudança para São Bernardo - ele se enamora da segunda moça chamada Azenaide, ela tinha cabelos loiros e era branca dos olhos claros.

A JARARACA
O natal de 1974 foi marcado por belas lembranças de família com grande festa entre os mais chegados, presentes para os meninos e um ambiente de paz. Além de tudo, era o primeiro natal dos pequenos na presença de sua tia, ambígua ao momento, felicitando-lhes os bons votos. Dalmo ganhara de presente seu um álbum para colecionar fotos com a capa de paisagem selvagem de colinas e rochedos sintonizados ao tom verde musgo - sua cor favorita. Ali ele colecionou fotos desde seu nascimento e crescimento junto de outras figuras que achasse importantes como registros de casamento dos pais, de Dilberto como oficial no período do exército, fotos de animais da fazenda, arvoredos e belas paisagens além de fotos 3x4 do seu próprio rosto. O mesmo presente havia sido dado a ambos os irmãos em épocas diferentes. Ana amava a cor azul do mar que foi o tom escolhido para o seu álbum de fotos onde gostava de fazer registros seus nos pomares da fazenda, fotos de sua tia e casamentos de primos - porque adorava ver os vestidos de noiva; já Betinho ganhou um álbum de cor escura com decoração quadriculada onde preferia registrar figuras mórbidas de animais moribundos, árvores secas ou arbustos como também de antepassados, guardando fotos de seus avós (materno e paterno) incluindo alguns poucos registros de sua avó Salustiana e suas tias-avós Joana e Ana Maria - sendo o único álbum entre os irmãos com um histórico maior - além das demais sobre seus pais, fotos dos criados e paisagens. Sem contar as de infância em Santos.

A rotina do casal na fazenda também era admirada por todos a volta. Dilberto e Irecêr saíam para passear juntos, íam a cinemas quando as caravanas de filmes visitavam o interior, ficavam horas assistindo enredos policiais, de guerras civis e temas militares - a gosto dele. Além disso mantinham as refeições em família - as quais a esposa preferia preparar exclusivamente a de seu marido e antes mesmo de servir o prato ela cortava os pedaços de carne, separando cuidadosamente os fiapos e levando com grande apreço até a mesa. Seu relacionamento era muitíssimo apreciado por ser o único da família que até então não haviam interesses de investimento ou negócios externos envolvendo um matrimônio combinado ou maquiado pela parentela. No período do trabalho de Dilberto, Irecêr visitava regularmente sua cunhada com a presença da Ana - a princesinha, como Daisy desejava sempre vê-la, davam-se bem e conversavam durante toda a tarde. E tudo parecia estar estabilizado.
Porém a contraposto disto, as memórias do Dilberto Júnior não pareciam-se tão doces com relação a sua tia. Antes mesmo de se mudarem do acampamento de celulose em Gato Preto para a fazenda da mineração (Registro), a família não teve algum meio de transporte para a mobília da antiga casa, quando em uma semana depois de sua mudança, Reynaldo - o cunhado de Dilberto - lhe avisou que haviam retirado maior parte de móveis e bens dos Fragoso e os resguardado num celeiro próximo de sua casa e que assim que pudessem buscá-los, estavam a sua espera. Mas quando eles retornaram para trazer os móveis ao casarão, só encontraram poucos dos artigos que possuíam, alguns sem a mínima importância e que podiam ser descartados, outros já estragados, mas nada do que importavam-lhes achar. Então Daisy contou que não havia tido tempo de armazenar todos os bens do casal e que muitos dos mesmos não pareciam necessários por estarem desbotados ou arranhados e com isso ela tomou a decisão de queimar sofás, estantes e outros móveis sem a permissão - várias posses que até ali haviam sido conquistadas com o tremendo esforço da família. Com exceção da bomboniere, um balcão luxuoso da sala de visitas incluindo a cristaleira do casal e uma poltrona de herança da sua mãe, Maria de Lourdes. Esses ítens de grande valia também sentimental foram tomados a força pelas mãos da irmã malévola. Isso tudo ocorrido após o nascimento da Aninha, que supostamente havia selado a paz entre as parentas. Outra vez de exemplo foi quando Betinho indo visitar seus primos já crescidos na casa de sua tia; era Reynaldo conhecido por Juninho, e Roberto o irmão mais novo. Ele havia sido convidado pelos dois para conhecer uma coleção de livros com conteúdo infanto-juvenil em doze edições no total com várias ilustrações e interações superinteressantes, chamada "Os bichos" que supostamente sua mãe os havia dado recentemente.

Comentários