top of page

Caim e Abel - A Drástica Gênese do Livro Soledade - Parte III

Foto do escritor: Mizpa
Mizpa
17 de mai. de 2022
7 min de leitura

[...]


O rapazinho mais velho todo entusiasmado virava as páginas e perguntava ao primo o que ele achava do presente, mas Betinho mal conseguia falar, vendo que aquela coleção era sua. Por ele ser um menino fechado, optou por não ferir os sentimentos do primo e saiu calmamente da casa após a visita e já no meio do caminho chorava muito.



Outra terrível maldade da mesma foi roubar o vestido de casamento da sua cunhada e rasgá-lo todo, dando as desculpas em querer fazer um vestido para a princesinha, deixando Irecêr desolada.

Voltando ao seu relacionamento com Marcelina, aparentava ser bastante saudável e afagava o ego do rapazinho para bem; este mesmo como mencionado, havia de ser um namorico breve e ingênuo como uma primeira aventura da adolescência, mas que por alguma estranha circunstância o Júnior não parecia mostrar uma maturidade maior do que já mostrava, embora agora também pelo namoro ele estivesse mais aberto e expressivo, passou a mostrar uma irritabilidade comum na fase de crescimento, porém que deixou os irmãos mais novos um pouco assustados contando relatos imprevisíveis aos olhos de sua mãe que jamais testemunhara tal comportamento.


A rotina dos meninos Dalmo e Aninha era passar o dia brincando, por conta da idade, passeavam nos jardins e usavam dentes de leão e caules de flores como bonecos anfitriões de baile em suas fantasias. Assim como o pai, Dalmo amava séries militares, também assistia festivais de música na presença da família e deliciava-se com os desenhos animados que eram transmitidos pela manhã. Já Aninha gostava de acompanhar séries de fantasia, como Sítio do Pica-Pau Amarelo e também programas de princesas, senhoras medievais e damas ricas. Ela também dispunha de várias jóias singelas que seu pai lhe presenteava, adorava usar anéis e colares. Como já dito, Betinho continuava acompanhando seu pai no trabalho, quando podia, frequentava o ginásio que se localiza na parte mais baixa do território da mineração, onde todos os dias era levado de caminhonete pelo pai e ao sair de lá se encontrava com Marcelina e passava o dia com os filhos dos criados; ou volta e meia na maior parte do tempo preferia estar com sua mãe, como de costume, auxiliando na rotina caseira e também a acompanhava nas visitas de conhecidas próximas, amigas que Irecêr havia feito na fazenda, as esposas de criados e outras. O que estreitou ainda mais a afinidade entre os irmãos pequenos e entre Irecêr e seu menino mais velho. Por conta do serviço, Dilberto costumava chegar tarde demais na noite, então Irecêr deixava que os filhos dormissem perto da hora de sua chegada enquanto assistissem televisão, com mais probabilidade do Dalmo e da Aninha irem deitar um pouco antes e, como esperado, o Betinho aguardar junto dela.

Aderindo desde já cedo uma vida adulta por sua preferência, a convivência habitual dos irmãos mais novos durante a infância era mais afastada, de maneira que quando estavam juntos para uma confraternização, haviam certas estranhezas apesar dos meninos dormirem juntos no mesmo quarto. Quando, por exemplo, Dalmo e Aninha saíam para brincar na área e Dilberto Júnior tentasse interagir com a cena, o irmão menor sentir-se incomodado, se irritava com as intromissões e com o tempo qualquer uma de suas atitudes premeditadas já deixavam o garoto irritadíssimo como se houvesse motivo para tal. Isto porque ele reclamava de um comportamento abusivo e maldoso do irmão mais velho que ninguém sequer havia visto antes e por isso os pais acreditavam que fosse alguma birra comum entre irmãos por motivo de ciúmes pela atenção da caçula ou por imperialismo do Dalmo. Inclusive as acusações pareciam um tanto absurdas, como ser trancado em um quarto escuro, ser assustado no meio da noite, fazê-lo se perder pela fazenda e esconder seus brinquedos ou joga-los por uma colina do logradouro que findava em um caminho muito distante. Enfim, nada que saísse fora do normal aos olhos dos pais, além de atritos ou travessuras comuns entre irmãos.


A irmã caçula também começou a reclamar muito do comportamento grotesco do Betinho para com ela - mas literalmente com coisas mais sérias - como que ele havia lhe contado que a menina era para ter sido mais um aborto na coleção e outrora que ela havia sido achada no lixo e pega para ser a empregada da família. Ele também a dava sustos constantes e a trancava em quartos escuros, colocando na vitrola discos de orquestras sinfônicas apavorantes que lhe fazia sentir calafrios. Mas o que Irecêr estranhava eram tais jeitos que jamais foram notados no jovem, visto principalmente pela sua educação e que era completamente o oposto, sendo um rapaz doce e atencioso. Quando ela questionou o filho pelas atitudes, ele a disse que não eram tão sérias assim e que apenas fazia pois sofria rejeição dos irmãos.

Daí entra um detalhe muitíssimo curioso na história que é a possibilidade do Betinho ter sofrido violência sexual. Não se sabe a idade ou se realmente houve já que nunca foi relatado pelo mesmo, embora temos observado na narrativa o seu jeito retraído e uma repentina mudança para agressividade nunca vista antes pela mãe, além dos sintomas críticos parecerem apontar para essa alternativa.

Uma destas foi a história do acidente com o machado que houveram duas versões. A primeira contada pelo próprio Betinho e relatada mais acima onde o garoto chegou no casarão discretamente e pediu o socorro do pai por meio de um criado enquanto aguardava completamente silencioso. A segunda versão é dada por Irecêr que relata completamente o oposto, dizendo que ele adentrou a casa apavorado aos berros e não escondeu os dedos da mãe ainda fazendo um gesto como se os dedos fossem cair. Embora esta história não nos conte exatamente o que gostaríamos de saber, detalha muito sobre seu possível comportamento melindroso e ligado a mãe - lembrando que na primeira parte desta série é relatado que Irecêr aos quarenta e poucos anos veio desenvolvendo uma demência, o que pôde fazê-la alterar alguns fatos bem pequenos da história, mas se considerarmos a segunda hipótese, ela também é plausível. Apesar do desespero momentâneo também foi presenciado um comportamento exatamente igual na despedida de um dos criados da casa.


Conhecido por Salvador, Daniel de Araújo nascido em 24 de abril de 1950 morava em Cajamar e também tinha o apelido de Picharro. Tratorista funcionário dos Abdalla era muito próximo da família Fragoso e quando estava por lá, dormia na ala dos criados especiais do casarão. Chegou a visitar a família assim que se mudaram da fazenda, na época em Ângelo Piculi no ano de 1980. Os boatos sobre a sua pessoa eram de questionar sua conduta vista como maldosa e que também assediava as empregadas. Outro boato contava que ele tivesse um caso com a pajem da Aninha, filha mais nova de Irecêr e Dilberto F.

Ele realmente foi o criado mais próximo do garoto e ambos tinham uma extrema proximidade, tanto que preocupava seus pais em presenciarem o forte apego emocional com um estranho em relação a família e também do seus jeitos logo aos quinze para dezesseis anos de idade serem mais desconfortáveis principalmente ao seu pai que não conseguia observar no menino iniciativas masculinas. Além de Daniel (Salvador) não ser um rapaz muito mais velho que Dilberto Júnior, o criado já era um homem barbado, vinha de um antigo relacionamento onde concebeu uma filha e fora as más influências, não parecia ao Sr. Fragoso uma amizade atrativa e saudável ao seu primogênito. Ainda mais pelas consequências que lhe viriam a serem um transtorno e grande vergonha ao ego.

Certa vez, Salvador teve de ser dispensado do serviço e decidiu abandonar o cargo de tratorista na fazenda, para morar no interior. E neste dia, Dilberto Junior ficou desolado, chorando estridente, jogava-se no chão e fazia birras. O desespero do menino foi tanto que seu pai teve de repreendê-lo duramente como uma criança de colo, sofrendo muito com o constrangimento do comportamento preocupante de seu filho que viria a piorar conforme os dias, decidindo deixar de se arrumar, não cortar os cabelos e usar tamancos. Se desfazendo de todos os seus costumes ordeiros.

A noite da taça de vinho -

Foi outro episódio já descrito mais acima, que poderia ter sido uma oportunidade para a tentativa ou concretização da violência sexual, nesta versão, cometida pelos filhos dos funcionários. Temos que os seus novos amigos haviam achado os costumes do filho do chefe um tanto incomuns, levando em conta a educação como também sua natureza ingênua. Esta suposição conduz o leitor a pensar que os garotos roceiros tivessem quisto se aproveitar da novidade de uma família recém-chegada com costumes diferenciados e filhos bem delicados de vida doméstica, oferecendo ao mais velho a taça de vinho misturada com cachaça na primeira confraternização com a família - no caso seria o primeiro natal da família na fazenda. Outra porque a própria Irecêr disse presenciar ou ouvir boatos de que os filhos dos funcionários costumavam catar galinhas da fazenda para praticar o coito; e isto muito a assombrava até mesmo pela sua própria vivência em áreas rurais de cultura rústica, onde também havia presenciado coisas do gênero e sempre foi de ouvir histórias de experiências banais entre moleques e animais. Como Dilberto, seu marido, era muito ocupado com os afazeres na gerência do minério além de não concordar em ouvir tais absurdos, desconsiderava possibilidades caóticas em pleno sítio do interior, chamando as histórias da esposa de abobrinhas ou invenções e dizia que as atitudes anormais do filho eram frescuras da adolescência e que apenas precisava amadurecer. Restava ao menino andar sozinho ou passear com seus supostos amigos diabólicos. A noite do vinho seria somente o pretexto para realizar tal leviandade.

Nota: Embora a narrativa pareça deixar a desejar, descrevendo momentos muito vagos que mostram algum comportamento do primogênito alheio ao normal, é importante esclarecer que o texto segue exatamente a sequência correta dos acontecimentos e também que justamente por causa destas ocorrências isoladas é que se tornou quase imperceptível nestes tipos de atitudes uma característica fatal de sua genialidade, estranhamente notada durante os seus períodos de relacionamento. Nesta parte do texto, as situações se apresentam bastante inofensivas, apesar deste ser o objetivo desta narrativa poder mostrar conforme o seu crescimento a evolução de um possível distúrbio no maior. Peço assim vossa gentileza do senhor leitor em considerar e saber interpretar cada linha aqui descrita para total compreensão de como chegou naquilo aonde a narrativa busca chegar.

Comentários


bottom of page